6.4.05


Redescoberta

Cerrou os olhos do corpo. Sentiu, num ímpeto, um pacote saltar para outro andar de si mesma, para o andar que já ocupara tempos atrás, tempos em que não sabia quilatar a grandeza do que vinha dentro. A fita vermelha deslizou, suavemente desmanchou o laço e pendeu para os lados, deixando que a caixa se abrisse e o tesouro guardado novamente incandescesse tudo com seu brilho.

Guardado. Era assim que as coisas estavam. Guardadas. E tão bem, que mal se podia notar sua silenciosa existência. Seus sinais eram constantemente abafados pela hibernação forçada de quem busca a si mesmo. Mas ela sabia, embora não quisesse saber, que no momento certo tudo que estava escondido viria à tona. E veio. Ela não relutou, não questionou, não quis entender. Em um estalo estava tudo muito claro, tudo pode ser identificado. Então, apenas fechou os olhos e sentiu.

Era um misto de saudade e novidade, reconhecimento e surpresa. E o deslumbramento era tamanho, que ela percebia tudo como da primeira vez: borboletas no estômago, as mãos trêmulas e geladas. Ainda que tentasse esconder o sorriso bobo, jamais poderia ocultar o diamante nos olhos.

Experimentar novamente o toque daquelas mãos, aquele corpo tão junto, tão dentro, os lábios, a pele, a língua, o cheiro... ah, o cheiro! Por quantas vezes sentia aquele perfume com as entranhas, sem nada poder fazer além de inspirar lembranças. E agora, aquele aroma que a inebriava iria ficar novamente gravado no corpo dela, misturado à madeirice do incenso e à acidez doce dos seus fluidos.

Pensou por um segundo que se tivesse sequer cogitado ceder ao seu orgulho sempre superlativo, toda a magia daquele instante não seria jamais vivida. Mandou a vaidade, a razão e tudo mais para o espaço e se entregou. E sentiu a entrega da outra, em igual proporção de ânsia, de saudade, querendo engolir de uma só vez todas as sensações redescobertas, tanto tempo sufocadas pela falta.

Cada roçar parecia ser envolto por eletricidade, por qualquer coisa que as colocasse em outra dimensão, onde tudo era excessivamente sentido, e onde os excessos só pediam sempre mais. Amaram-se e misturaram a volúpia às lágrimas, cheias de desejo e alívio. Adormeceram. E despertaram enlaçadas, com o gosto da velha novidade. O gosto de saber que a vida dera uma volta inteira para parar exatamente no mesmo lugar. De novo.

ju: 10:44

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