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Movimento Uniformemente Acelerado
O meu tempo é veloz. Processos surgem, desenvolvem-se e resolvem-se dentro de mim com uma rapidez pretensamente maior do que me parece acontecer à maioria, muito embora o tempo seja relativo e meu referencial seja eu mesma. À primeira vista, tudo parece medrosamente efêmero, superficial. Mas a verdade é que sinto essa celeridade como uma urgência da vida para me fazer acessar e transmutar coisas profundas em mim, como se me preparasse para algo em que tais conflitos já não pudessem existir e não houvesse tempo a perder.
Dentro do meu elevador, que o que há em mim não tem tempo de ser poço, desço ao fundo dos meus sete andares e sinto a dor com a mesma intensidade com que volto à tona, fichas caídas, modificada. E não é tudo. Nunca é.
Apesar do turbilhão de acontecimentos jogados sobre a minha complexidade fogo-água e dos milhares de anos que correm nos meus 365 dias, a confusão quebra meus paradigmas e me mostra sempre o quanto as coisas são infantilmente simples. E de fato o são.
A vida, que brinca com meus limites e a minha tolerância, manda uma atrás da outra e rompe a todo o momento minha racionalidade. Enfia na minha cabeça e sopra ao meu ouvido que a insanidade é mais sã do que qualquer um possa imaginar. Tira a venda dos meus olhos e mostra que tudo é humanamente acontecível. E aceitável. Os choques dentro de mim sucedem-se entre o medo e a confiança, numa busca interminável por identificar aquilo que sou eu. Até que a metamorfose das coisas me mostra que eu sou exatamente essa mutabilidade, afetada o tempo todo pelas trocas que me abastecem e nunca me bastam.
E aí, com sua naturalidade irritantemente óbvia, uma força me faz perceber que o ser em si - o meu e o do outro - nunca será captado, posto que é como sombra que anda comigo, mas se transforma a cada movimento - o meu e o do outro. Eu nova todo dia. E rápido.
ju:
10:36
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8.3.05

Véu
E então, no exato instante em que você se sente tão inhozinho, e pensa que vai, como uma senhorinha católica, virar a cabeça de lado e padecer feliz e resignadamente o precioso e dolorido momento da lição, vem a vida de repente, cheia daquela sabedoria debochada, te mete dois tapas em cada face e te faz acordar: o tempo do desfrute é agora. O prazer não está em outro lugar senão aqui mesmo. E com suas mãos ágeis, arranca de uma só vez o véu que cobria os seus olhos e te faz enxergar, de presente, a velha novidade que esteve sempre ali, sob os seus pés, tão ao alcance da pele. Tão perto, que você até duvida, porque só acredita no que está longe. A vida, velha marota, vê a sua cara surpresa e se dobra de rir das suas quase-mortes.
ju:
16:25
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4.3.05

Eu me acerto
Não pensa mais nada
No final dá tudo certo de algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu aguento
Eu suporto a colisão
Da verdade na contra-mão
Eu sobrevivo
E atinjo algum ponto
Eu me apronto pro dia seguinte
Escovo os dentes
Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei a mesma
[Z.D.]
ju:
11:33
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