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Enfim
Gozou. Só. E não era o consolo do prazer solitário, era a celebração de um reencontro. Ou de uma afirmação. Era ela com o espelho, ela com o que habita dentro. Era não só a ternura de um carinho inesperado ao telefone, mas muito mais a satisfação de sentir seu eu, de perceber o efeito de verbalizar pedras, de vomitar o que rasgava a garganta, sem medo de ferir, porque, pontiagudas, machucavam mesmo é quando estavam dentro. Desejou que se danasse o mundo por quem sempre viveu e respirou fundo: agora era ela só. A primeira sensação de liberdade depois de tantos anos, tal como os de menina. Livre, sem que precisasse se desligar de um só laço a que estava atada por vontade própria. Estava libertando-se era de si mesma e de todos os padrões e dependências e requisitos e aprovações que havia se imposto. Era um processo, não se iludia, mas o primeiro passo estava dado. Queria mais, muito mais. E sabia que teria.
Levantou, pisou firme no chão, foi para o banheiro. Pegou a tesoura e estendeu no piso uma página da Folha Universal que havia ganho na rua. Aparou seus pêlos pubianos sobre as frases do bispo Macedo e riu da pequena heresia, provocada quase sem querer. Pensou nas carolas que ardiam com o fogo do inferno queimando suas carnes de desejo e rezavam a Deus, pedindo salvação. Riu gostosamente. Banhou-se, perfumou-se. Incenso de sol, que queria sentir o cheiro do brilho. A dança do sol espalhando claves pela sala. Percebia-o no próprio plexo, regendo-a como sempre fizera, por mais que ela tentasse nublar-se. Olhou-se nos olhos, com um olhar oblíquo e brilhante, de quem se prepara para um mundo cheio de surpresas, pronta para o que vier. Abriu o sorriso mais belo que tinha e sorriu. Era ela, enfim.
ju:
20:08
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