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Simples
Essa noite eu sonhei com você. Nada demais. A gente apenas dormia, meu braço enlaçando a sua cintura e nossas pernas encaixadas. A presença do teu corpo, ali, preenchendo meu espaço, completando nosso todo. E paz. Profunda. E tão palpável, que, ao abrir os olhos, custei a discernir se a gente dormia assim ou se eu de fato sonhei. Só isso. E isso é muita coisa. É tanta, que eu acordei no céu. Porque é por essa paz que tenho ansiado no meio do alvoroço enfastiante dos dias. E é quem me mostra o quanto ela mesma está, a um só tempo diáfana e concreta, dentro em mim.
Nem que todas as ilusões sucumbam, nem que todas as chamas sejam lançadas pelas narinas de Quimera ao ver seu faz-de-conta dissolver-se fácil feito pó, nem que para isso eu vá ao fundo de mim todos os dias para arrancar o que já não serve, eu quero o real. Quero o tanto e o tão pouco que você tem a me oferecer, te quero apenas isso, essa verdade tão terra, que gruda os pés no chão. Quero sugar essa chance até que não sobre uma só gota. Quero através dela me estabelecer. Transmutar. Transcender. E bastar-me de forma tão precisa, que cada mínima manifestação de paz como essa, ainda que onírica, me venha assim, como um presente. Eu aceito.
ju:
11:46
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10.11.04

Domingo
Quinze dias sem dar notícia. Três meses sem aparecer. Não é só a casa quatro em aquário, é a falta de sentir falta. E a ausência de culpa nisso. A mesa posta, os caprichos atendidos, a mãe correndo de lá para cá. Não é só disposição, é o medo do silêncio inquisidor. Caminhos abruptamente bifurcados, um horizonte fechado. Jamais um gesto qualquer teria a mesma displicência de outrora.
O troféu de cristal se quebrou. A filha não era mais o presente que se exibia, nem a recompensa que se esperava. Intragável. A mãe pobre-de-mim julgava ter errado. Mexeu onde não devia e a verdade lhe fora jogada crua na cara. Não entrava na cabeça. Não era possível. Sua cria só poderia estar iludida. Manipulada. E agora? Como seu amor poderia se aplicar a alguém que ousou pisar fora da linha enquadrada que ela sabiamente traçou? Resgate. Era apenas uma questão de tempo e arranjos metafísicos para que tudo voltasse à normalidade. Até lá, as coisas seriam como sempre foram: rasas. Mas, ao contrário de antes, sem o disfarce do profundo.
A aparente tranqüilidade encobriria a realidade latejante. Frente a frente, nada daquilo acontece, nada existe. Por amor, a mãe finge. Com um discernimento irracional, forja. Dedica-se, ocupa-se, tenta provir externamente aquilo que está vazio dentro. A mesa de domingo está repleta, palavras são arremessadas boca afora ininterruptamente. Superficiais. Lapsos de silêncio deixam submergir a necessidade do quanto precisava ser dito, mas não há vontade que o suporte. A breve tensão é afogada pela verborragia. E o espaço entre elas permanece abismo. Distância irremediável entre dois mundos sem intersecção.
ju:
11:36
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4.11.04
Regresso

"Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando"
ju:
10:38
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