29.7.04

Calabouço e brandura


Mesmo diante do maremoto que eu mesma causei, eu posso escolher. A despeito das fisgadas que insistentemente me assaltam, da agonia que sobe pelo corpo e engasga a garganta, da água que meus olhos se esforçam por reter, ainda assim eu posso escolher. Entre a culpa e o remorso, a tristeza e o arrependimento, eu opto pela leveza.

A suavidade é esgravatada dentro de mim e, pela minha vontade, varre tudo o que me dói. Se a lição deve ser assimilada, que seja de forma condescendente com a criança que me habita e ainda erra para aprender. Se a felicidade está aqui dentro, apenas aqui e não do lado de fora, então trato de encontrá-la para que me saiba feliz sob qualquer circunstância, para que haja prazer até na queda, no levantar depois do tombo. Do alto do muro das minhas escolhas, procuro acertar. E errando, reconheço e tento outra vez.

Nesse recomeço, que se faça viva a paciência necessária, a lucidez diante das forquilhas, a firmeza nas decisões, a delicadeza na turbulência. Que o mergulho para dentro me deixe encontrar tudo aquilo que me basta, para que eu seja livre o suficiente para me ser. E só.


ju: 16:59

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  28.7.04


Esse é o último texto da retrospectiva. Não foi publicado no Literatice, como os anteriores, e tem uma conotação diferente dos demais, mas também foi escrito há algum tempo. Outros deveriam ter entrado, mas os perdi. Coincidentemente, essa republicação termina no mesmo dia em que acaba um ciclo para mim. Amanhã começa outro, e eu o inicio cheia de aprendizados que a vida me deu de presente durante esse ano que passou, e cheia de vontade de começar a construir a vida que eu quero, do jeito que eu quero - e que só agora descobri, debaixo de muita porrada, como deve ser. Então, vamos ao texto, que terminar falando de amor é sempre muito bom!

***

Em 09/01/2004

De como se começa um bom dia

Sete da manhã. Tinha apenas meia hora para acordar, se arrumar e sair para o trabalho. Porém, o sono insistia em pesar nos olhos e, ademais, adorava se fingir sonolenta para ser agraciada com beijos e mais beijos de despertar. Enrolava, miava, reclamava de sono e virava para o lado. Avisada de que a hora corria, virou-se para o lado de sua mulher e abraçou-a por trás. Mas abraçou-a de maneira milimetricamente encaixada, peito, costas, ventre e pernas completamente colados, como poucas vezes se consegue, como só se consegue assim, ao acaso, quando tem de ser.

Passou a mão, meio sem querer, sobre um dos seios dela. Sentiu o bico ereto, arrepiado. Era o sinal - e por ele se deixou levar. Os olhos ainda fechados de sono, permaneceriam, agora, fechados de prazer. Trouxe a mão até o outro seio, acariciou, escorregou pela barriga, tocou o umbigo. Escutou-a respirar mais forte. As mãos desceram pelas pernas e as unhas arranharam levemente o interno das coxas. Subiu, contornou e, em poucos segundos, sua mão perpassava a roupa e roçava os pêlos dela, que se contraía em arrepios e sussurros.

Não tardou para que sentisse o prazer dela molhado em sua mão. Uma onda de frio e calor percorria a coluna de ambas e circulava por todos os poros e pelo ambiente. Rendida, sua mulher se contorcia de prazer, as mãos dela percorriam seu corpo até pararem no meio de suas pernas e entrarem, num ímpeto, pela sua calcinha. Calafrio. Agora ela sentia, através do toque da outra, o prazer que nela causava. As duas, simultâneas, coordenadas, recebendo e proporcionando o prazer que lhes fazia sentir vivas e amadas.

De repente, a respiração de sua ninfa - e era assim que a enxergava - foi se intensificando num crescente, ofegante, forte, o corpo agitado, ondulante. Gemidos altos. Alcança o clímax do prazer. Imediatamente, sem ao menos dar tempo para normalizar as batidas do coração, vira-se sobre ela, cobre-a com seu corpo e retoma o movimento da mão, passeando pelo seu sexo, sentindo o calor, a umidade, a textura. Agora ela é que estava dominada, vencida. A calidez que a consumia em espirais fazia com que movimentasse o corpo, girando o quadril, subindo, descendo, numa dança felina, sinuosa. Agora era a sua vez, e o gozo chegou numa explosão, tirando-lhe a respiração para imediatamente depois inundar-lhe de energia. Ela gemia alto e sentia seu corpo contrair-se em espamos. Cada poro da sua pele vibrava com as batidas cardíacas aceleradas.

Deleitou-se. Respirou profundamente e sentiu o corpo lentamente voltar ao seu ritmo normal. Abraçadas, trocaram carícias e palavras de amor. Lembraram-se do dia lá fora, os minutos voltaram a correr. Num enlace apertado e aconchegante, afastou delicadamente os fios de cabelo que estavam sobre a orelha da sua amada e sussurrou no seu ouvido: "bom dia".



Two Friends, Toulouse-Lautrec

ju: 15:48

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  27.7.04

Em 22/10/2003

Colcha de retalhos


A vida andava boa. Segura e serena como só um coração preenchido pode ser. Um relacionamento feliz, tudo repleto e manso, muito manso. Mas o desejo espreita as brechas invisíveis e perpassa os menores buracos. De repente um outro ser atravessou o meu caminho. No princípio era a curiosidade, a vontade de conhecer melhor e garimpar coincidências, principalmente quando parecia não haver nenhuma. Eu leio isso, eu ouço aquilo, é desse aqui que eu gosto. Risadinhas e insinuações, sol, lua e ascendente em conjunção ideal, o ser perfeito. Para três meses atrás. Agora, exatamente quando ele surge, qualquer movimento implicaria em unhas roídas e decisões.

O sinal vermelho acende. Queria te pedir para me ajudar a não jogar com você, a não te seduzir. Nós já havíamos entendido as coisas, os pedidos e os olhares. Melhor parar por aqui, chega de bifurcações. Tentando agir sensatamente, quero manter distância. Você diz que vai fazer como eu pedi: perto, mas bem longe, antes que seja tarde, ou cedo demais. Que nada. Gota d¿água tentando apagar o que já era incêndio. Tudo veio à tona num turbilhão, tudo muito rápido, de uma só vez, de um dia para o outro.



'Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido
Minha musa, vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão'



E o poeta viu na minha escuridão dissimulada, na aparente indiferença, que tudo ainda fervia dentro, que eu dizia um não louco para ser sim e assumir todos os compromissos. E você provocava e instigava tudo o que sabia que eu queria. Nossos mundos díspares se convidavam o tempo todo, e perder isso seria muito mais que uma simples perda de informação. Eu queria e não queria e a minha dúvida despertou sua impaciência. Não. Agora é você quem não quer. O certo é que isso pare por aqui, concentre-se na sua relação. Entretanto, nada faz calar dentro de mim: uma pena. Também acho. A sensação que eu tenho é a de uma oportunidade queimada por ter surgido no momento errado, e o ódio contra o tempo consome meus ossos.



'Ah, não existe
Coisa mais triste que ter paz
E se arrepender
E se conformar
E se proteger
De um amor a mais'



Visto uma roupa à prova de fogo e mantenho distância, mais uma vez. O gelo derrete rápido, pois o sopro que tenta apagar a chama é combustível e cria labaredas. Algo novo me prende ao seu redor e me faz perder as rédeas. E não há tempo sequer de tomar fôlego, porque o que era fantasia vira realidade carnal, pele estremecendo além da conta, liberta da repressão. Aconteceu. Você me tirou todo o ar, quase convulsão. E o desejo é imã que nos puxa e nos faz correr riscos com medo e com gana, as lembranças febris nos assaltando a toda hora, causando calafrios.

Os laços se estreitam e a dúvida agoniza. Você avisa que não vai embora, a menos que eu te expulse. Uma bomba com dois pavios acesos nas minhas mãos. Seu querer egoísta promete bendizer-me boca e língua, destiná-las somente a você e a mais ninguém. Dois caminhos diante de mim, remanso e catarata, uma locomotiva se aproximando e eu em cima dos trilhos. Você vive as coisas até que elas sequem, não é dessa vez que vai deixá-las infiltrar. Eu pesando pós e contras e você, com os olhos dentro de mim, me atira contra a parede e pergunta: o que é certo nessa vida? Me diga agora, o que é? A vida é mais relativa que os pronomes...

Eu faço a minha escolha. Por covardia ou intuição, permaneço na estrada branda e conhecida. Mas escolher é sempre perder por um lado e eu demoro a me conformar com parte da derrota. Fuligens de fogo e fumaça rala dançando no ar. Foram poucos dias de incêndio, mas as cinzas permanecem por séculos. As chamas só cessaram por cansaço, vencidas pela rotina forçada, a banalidade de um dia após o outro. Sem receber atenção, elas deixaram de brilhar. E as cinzas que restaram do vulcão serviram, enfim, para nutrir a terra e preparar o coração, de novo, para a fertilidade.


ju: 08:43

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  26.7.04

Em 21/10/03

Encomenda

Porque você foi a primeira pessoa a colocar o espelho diante da minha cara mascarada e a me fazer enxergar dentro, bem dentro, toda a singeleza e o lodaçal; porque você puxou pra fora, com força, o que existe de mais essencial em mim e o fez irromper diante da crosta do convencional; porque você me causou a agonia da espera sem certeza e a serenidade de um lago muito claro e cintilante; porque você preencheu o vácuo da minha dissimulação permanente e soberana com um amor em plenitude que não dá lugar a pensamento; porque você se apossou da minha vida e eu a concedi de bom grado para que você fizesse dela o que bem entendesse; porque você permitiu que o acaso trabalhasse e nos fizesse encontrar em meio a milhões de elétrons, de novo; e porque eu estou absolutamente entregue, é bom que você saiba que é, seja isso bom ou mau, irremediavelmente responsável pela minha existência.


ju: 08:30

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  23.7.04

Em 17/10/03

Fatalidade

Gelo. Dos pés à cabeça, gelo. E o coração batendo mais rápido que barulho de chuva forte no chão. A cidade inteira, todas as ruas e esquinas e praças não foram suficientes para despistar o acaso. O passado estava ali, bem na sua frente. Apenas alguns metros e uma faixa de pedestres a separavam do ser que bebeu por completo seus pensamentos e sua vida durante três anos. Sinal fechado, pessoas por todos os lados, o sol ardendo o corpo glacial, as mãos já suando. Pensou em tentar escapar, fingir que não viu, dar uma disfarçada. Não dava. Os olhos já estavam fixos e ligados através das faixas brancas no asfalto.

Ela não estava preparada para aquele encontro repentino. Talvez ainda não estivesse nos próximos duzentos anos, mas... agora? Agora ainda era cedo, muito cedo. Apenas dois meses tinham se passado e ninguém pode se reconstruir em sessenta dias. Não depois de um terremoto. Todas as lembranças ainda estavam muito vivas e começaram a percorrer freneticamente seus neurônios, borboletas voando no estômago. As crises de ciúme, o fervor dos momentos de paixão, a dependência, a indiferença cortante, a auto-estima no buraco negro. Estava convalescendo, não tinha alicerces para suportar um turbilhão, novo ou velho.

Mas a placidez dos momentos de carinho, as gargalhadas, a lascívia quase inocente, quase indecente, os olhos cintilantes, as poesias ao pé-do-ouvido... (suspiro). A recordação rosa vinha mansa e desbotava o vermelho no meio da testa. Será que não poderia ter surgido nesse intervalo um mínimo de maturidade, uma capacidade alquímica de separar o sonho do pesadelo, de peneirar até a perfeição? Quimera.

O elevador incessante subindo e descendo os sete andares do corpo. Quanto tempo um sinal permanece fechado? A imagem da lividez do outro lado da rua. A habilidade de improviso escorrendo bueiro abaixo. Oi, tudo bem? Puxa, quanto tempo! Não. E aí, idiota? Divertindo-se muito com a vidinha medíocre da solteirice? Não. É, eu ainda sinto aquelas coisas todas por você. Não. Não. Não. Branco na mente. Os hormônios em pânico e a boca muda. Os carros param, sinal verde. Ela engole seco e descrava do chão o primeiro pé em direção ao inesperado, rumo ao mergulho ígneo na vida que tentou sepultar.

ju: 11:00

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  22.7.04

Em 08/10/03

De como nascem as dores de garganta

Cabeça recostada no banco do ônibus, os olhos percorrendo as letras de um cartão de visitas nas mãos. Ana Maria Medeiros, terapeuta. Em poucos minutos, com a ajuda do trânsito, estaria no endereço indicado. Vinte e poucos anos e nenhuma identidade. Um emprego, uma casa, família, curso superior e um ser completamente desconhecido dentro do corpo. Nunca havia atentado para isso, ignorava a existência do incógnito em si. Sempre se achou muito segura, resolvida, consciente da própria personalidade.

A surpresa surgiu em pequenas conversas com amigos. Entre um comentário e outro, notava que as pessoas a concebiam de uma maneira distorcida do real. Sentia-se vermelha, mas enxergavam nela a placidez do branco. Nunca havia se dado conta de que usava máscaras, porque, até então, o fazia sem perceber. Mas começou a notar que quase sempre expressava o contrário do que sentia. Aceitava a torta de banana preparada pela sogra, mesmo quando não podia sequer suportar o cheiro da fruta. Tolerava a mais entediante das conversas porque havia lido em algum lugar que as pessoas precisam ser ouvidas. Você acha que essa roupa está muito chamativa? Imagina, querida, o importante é você se sentir bem. Será que você poderia encontrar o telefone desses fornecedores para mim? Claro, em um minuto. E perguntava-se porque o infeliz interrompe seu trabalho quando poderia simplesmente consultar o catálogo telefônico.

Ela gostava de ser uma pessoa acessível, a quem todos pudessem recorrer sem medo de uma reação intempestiva. Sentia-se bem em agradar, ser gentil, mas, ao contrário do que imaginava, não agia assim por educação ou falsidade. Era medo. Devia rodar a saia de ventos de Iansã, mas era a maternidade Iemanjá quem aparecia. A água apagando o fogo. A última lembrança de originalidade que tinha da vida era a dos seus quatro anos, quando cobrou da tia o presente que esta esquecera em seu aniversário e recusou um sanduíche oferecido por um homem no ônibus: não gosto de manteiga. Duro, verdadeiro, puro. Cristal. Hoje, ela apenas engolia. A adequação social, a conveniência e a comodidade abafaram a essência, no processo mais natural, imperceptível e traiçoeiro que já vivera.

O temor da rejeição a ocultava de si e do mundo. De repente, tornava-se óbvio o sucesso dos livros de autoconhecimento. Ninguém é original em coisa alguma. A incoerência entre o real e o aparente afastava o humano de si mesma e criava relações rasas e hipócritas. Aperta o botão, desce do ônibus. Número 63, sala 8. Respira fundo e toca a campainha , sentindo o coração apreensivo e ansioso, na esperança de aprender a expressar fora tudo o que ardia dentro.

ju: 10:47

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  21.7.04

Em 06/10/2003

Paráfrase

Você já experimentou rasgar a carapuça da apatia e deixar o entusiasmo tomar conta de você? Tirar a lente blasé dos olhos e enxergar o mundo em cores? Já experimentou se render ao amor sem cautela, sem estratégias, sem jogos de empurra e puxa? Simplesmente deixar o calor tomar cada poro da sua pele, da cabeça até as pontas dos dedos, o arrepio subir pela coluna e a endorfina transbordar pelos olhos e pelos dentes?

Já experimentou sentir saudade, mesmo que tenha se despedido há apenas cinco minutos? E contar as horas para o reencontro, sentindo frio a cada lembrança do momento passado? E fazer planos para os próximos trinta anos e se inundar de expectativas sem julgar se é coisa demais para tempo de menos? Já tentou se deixar ser cuidado por alguém e se sentir absolutamente entregue? E ignorar os defeitos e conceitos e tabus e padrões, simplesmente porque a existência de um mundo lá fora lhe é cruamente indiferente?

Já se permitiu despencar até o subterrâneo, sentir a agonia espremer os seus ossos e a angústia queimar a garganta? Você já experimentou a dor e todas as suas úlceras, sem medo da imagem suja diante do espelho? Já tentou abrir um buraco no lodo e deixar que o instinto brote forte, jogando para o alto toda a estagnação e fazendo explodir a vontade de mundo? Já experimentou dispensar o dublê e viver, efetivamente, a sua vida? Pois devia.

ju: 09:09

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  20.7.04

Pra começar, já que esse é canto meu, vou republicar cronologicamente textos postados no falecido Literatice. Alguns se perderam por descuido, outros já estão bem distantes de mim, da maioria não gosto mais. Mas estou em todos eles. Não só para reuni-los, poucos que são, mas para ter a chance de reavaliá-los, a partir de hoje eles estarão aqui. Um por dia, com a data original, até acabar.

***

Em 04/10/2003

Suspiro

Ela acordou sem ter descansado. Estafa de vida não é algo que se esvai com horas de sono, mesmo que elas pareçam suficientes, mesmo que sejam precedidas de carinhos e cuidados. Saiu de casa com medo de mundo. Nada de errado, nenhum grande problema além daqueles com os quais já convivia. Ainda assim, sentia-se fragilizada, despreparada. Excesso de sensibilidade, TPM talvez. Teve vontade de chorar.

Entrou numa van ainda com sono, mas o rádio alto, anunciando o resumo das novelas, não a deixou dormir. Melhor assim, já que poderia encostar a cabeça na janela e pensar na vida, com os olhos embalados pelo mar à beira da Niemeyer. Adorava aquele caminho, sentia-se num road movie, pegando a estrada para a liberdade - clichê que alimenta nas pessoas o desejo de jogar tudo pelos ares.

Gente é um bicho esquisito, se aprisiona por vontade própria. Ela estava, de certo modo, vivendo como queria. Seus pés não tinham nódulos, percorria o caminho que havia escolhido. Mas a independência é paradoxal, pois só existe às custas do sufocamento. O ser torna-se independente de um núcleo e absolutamente dependente de tantos outros quanto forem necessários para que ela se mantenha. Quer respirar, mas não respira porque não quer. Não pode abrir mão. É o preço.

O cansaço que pesava sobre os ombros fazia com que ela se sentisse saturada até de tudo que mais gostava. Apagava a vitalidade e a coragem do começo. Deixava vaga-lume toda a luz do vale a pena. Havia desejo de leveza, mas a roda-viva carregava o desejo pra lá. Respirou fundo, sufocou uma pequena faísca de rebeldia, abriu a porta e pisou na rua. Continuaria a fazer tudo o que deveria ser feito, cuidando apenas para não ser engolida pela própria inércia.

ju: 10:35

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  13.7.04

Canais

Pelas palavras que deslizam pelos dedos e se cristalizam ao tocar da ponta. Por tudo o que pelo seu movimento é criado. Por tudo o que por eles é representado. Pela integração, pelo compromisso, pelo palavrão, pela acusação, pelo julgamento. Pela força e pela cura. Pelas garras e pela liberdade. Pela firmeza da diretriz apontada. Pela suavidade do toque, pela ternura do afago, pela transpiração quente do desejo. Pelo prazer que escorre por entre meus dedos nos seus pêlos. Pelo punho cerrado na acidez da ira e pelos dedos entrelaçados no doce da paz. Pela argila moldada, pela arte manifestada, pela idéia parida. Pelos dedos, a língua falada.

ju: 15:57

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Meu humor atual - i*Eu
 
"Só farei, sem pudor e remorso, aquilo que fizer com desenvoltura. Principalmente, a poesia e o amor. O amor ou é desacanhado, destro, irrefletido... ou é suor. A poesia também."

[Antônio Maria]

 

 

 
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